Colecção Portal Devir nº2
Tradução de João
Barreiros
Direcção de Luís
Filipe Silva
1
Por
vezes o nosso sucesso depende das falhas da concorrência,
pensou Soph enquanto examinava a massa obscura da nave
Argent. A
Argent conseguira batê-los na chegada a Vénus, e por
mais de um mês, mas continuava em órbita, recortada contra
as nuvens de poeira, mais longe da meta do que nunca.
-
O segundo vaivém atmosférico já partiu. Tal como tinhas
dito. -
Kun desviou por alguns segundos a atenção dos mapas de poeira
que flutuavam em torno da cabeça para examinar melhor a Argent.
Soph preferiria ser ela a ter esse tipo de trabalho. Kun devia ter-se preocupado
apenas em conduzi-los a todos em segurança até à superfície.
-
Afirmativo. -
Soph não estava para lhe explicar que tinha sido Lightfoot, o irritante
ex-marido, quem lhe dissera que o segundo vaivém atmosférico
da Argent iria estar pousado na superfície antes deles, e
provavelmente no mesmo destino previsto. Só esperava queisso
não significasse que iria ser obrigada a reavaliar tudo o mais que
ele afirmara.
-
Merda! -
Kun obrigou Soph a desviar a atenção da Argent.
-
Ora aí está aquele tipo de coisas que não gostamos
nada de ouvir o nosso piloto exclamar -
comentou Soph enquanto se desligava da teia do casulo antichoque.
-
Merda! -
repetiu Kun enquanto limpava a careca. - A porra destes mapas só
nos enfiam barretes!
As
nuvens de pó venusianas rodopiavam-lhe à volta da cabeça.
Bloqueavam a luz do sol, mantendo a superfície de Vénus habitável,
ao mesmo tempo que protegiam o planeta daintrusão
de veículos não autorizados. À parte estes recifes
do espaço, a capacidade de abordagem orbital de Vénus era
limitada e defendida por tratados que datavam da criação
das primeiras colónias humanas no planeta, séculos antes.
-
Conta lá outra vez quanto é que tu e a Kammer pouparam com
a compra dessa cópia pirata do mapa...
-
Esquece-
O
vaivém estremeceu. As paredes da cabina começaram a aquecer
com a fricção do pó. Soph ouviu os membros do grupo
a resmungarem e a praguejarem atrás de si.
Todos
os três aparelhos de Kammer e Kun eram excedentesdos
equipamentos utilizados no sistema joviano. Soph e sete outros membros
da equipagem viajavam suspensos no interior de um casco esguio de monocristal
com propulsores acoplados. Os casulos antichoque, arrancados a um velho
vaivém de Luna, ainda tinham colados os logótipos de flores
sorridentes da companhia de reconstrução. Soph notou que
cada uma dessas placas elásticas fora cuidadosamente disposta de
modo a esconder os sinais de fadiga da estrutura do casulo. Kammer e Kun
adoravam poupar dinheiro.
O
globo de Vénus, cada vez mais espalmado, surgiu-lhe por debaixo
das botas-lesma. Soph lembrou-se das velhas imagens do planeta, quando
este ainda se parecia com um rolamento meio desfocado coberto por nuvens
de ácido sulfúrico. Agora, as terras baixas de um verde vivo
rodeavam mares cor de estanho. Crateras dos cometas deixados cair pelos
alienígenas Monta Sonda marcavam as planícies. Quando os
oceanos ficassem enfim cheios, o planeta teria dois continentes principais:
Afrodite, uma massa de terra alongada, do tamanho de África, seguindo
o equador, e Ishtar, do tamanho da Austrália, pendurada do Pólo
Nortecomo um capachinho mal ajustado.
O
objectivo da missão localizava-se nas colinas junto do sopé
das montanhas Maxwell, que subiam a prumo no centro de Ishtar. Ali, num
recanto fortemente protegido e fortificado, um alienígena chamado
Ripi negociara umaextracção.
Ripi era, desde há dezoito anos, um hóspede/prisioneiro do
governo venusiano. Era também o único representante da sua
espécie no Sistema Solar. Fora apenas o elevado grau de tédio
e corrupção de alguns dos carcereiros de baixa patente que
lhe havia permitido estabelecero
contacto. Valia a pena o risco para conseguir tirá-lo de lá.
A
Argent tinha chegado primeiro ao ponto da lucrativa recolha. Mas
Tiber, o capitão, descera sozinho à superfície de
Vénus, sem razãoaparente-para
nunca mais ser visto. E dado que Tiber era a única pessoa a bordo
que contactara com Ripi, a Argent estava entalada. Ao que parecia,
a tripulação tinha enviado o segundo vaivém atmosférico
directamente ao reduto de Ripi, mas até esse esforço resultara
num fracasso. Ripi continuava preso na superfície.
A
linha do terminador estava quase a cobrir o reduto de Ripi. A faixa desfocada
do pôr-do-sol estendia-se agora sobre os altos picos das Maxwells.
A longa noite venusiana estava prestes a cair naquela zona, o que significava
que o grupo de Kammer e Kun tinha dois meses de escuridão para poder
operar. Soph desejava uma aproximação e captura rápida,
mas, como de costume, as coisas nunca aconteciam conforme o plano.
Mesmo
sob a linha da noite, a umas poucas centenas de quilómetros a sul
de Ripi, cintilava Golgot, a maior cidade de Vénus, junto ao que
seria, no futuro, a costa sul de Ishtar.
Kun
deitou uma vista de olhos ao mostrador de navegação que o
mantinha coordenado com os outros dois veículos de penetração:
o de Kammer e outro, pilotado por uma mulher chamada Mura. Sacudiu a cabeça.
Era um indivíduo jovem, com pestanas compridas, como se a compensar
a falta de cabelo.
À
medida que a poeira se esfregava maldosamente de encontro ao escudo ablativo
do casco, um assobio parecia vir de todos os lados, até mesmo do
interior do crânio de Soph. O escudo fora uma daquelas despesas que
Kammer e Kun tinham tentado evitar. Porém,Soph
insistira na sua instalação como uma das condições
para a sua participação. Um estaleiro circumlunar orbital
encarregara-se de pulverizar o escudo ablativo nos cascos por um preço
módico. A erosão do escudo absorveria a energia cinética
provocada pelo fricção contra as camadas de partículas
de pó. Era um meio de sobrevivência tão velho quanto
a viagem espacial.
-
Não vai haver problemas, Kun -
disse-lhe Soph -
Temos medidas de segurança.
-
Pois claro. Está-se mesmo a ver. Medidas. -
A ideia não lhe dava conforto nenhum. Engoliu em seco. -
Achas que... que a tripulação da Argent agiu sem o
consentimento do Tiber? Que andam a tentar deitar a mão ao Ripi
por conta própria?
-
Não, claro que não -
afirmou Soph, que tinha precisamente as mesmas suspeitas. Doutro modo,
teriam enviado o segundo vaivém para recuperar Tiber, ao invés
de tentarem alcançar Ripi directamente. Céus, como detestava
que Lightfoot tivesse razão. Não queria outra coisa senão
vê-lo enganar-se.
-
‘Tá bem! -
disse Kun. -
A malta vai sacar o Ripi.
-
Podes estar descansado.
Soph
recostou-se e sentiu a mala a modificar-se para lhe apoiar os rins. As
conexões internas, pelo menos assim o esperava, deveriam compensar
quaisquer insuficiências estruturais do casulo. A nave abanou com
mais força. À medida que o planeta aumentava de tamanho,um
saco macio colou-se-lhe à base da nuca.
Sophonisba
Trost era uma mulher baixinha, com um corpo forte e eficiente, olhos manhosos
e nariz achatado. Estava na casa dos cinquenta. Usava o cabelo ainda negro
cortado em forma de capacete e o rosto engelhava-se todo quando sorria.
O seu maior receio era que isto a fizesse parecida com um macaquinho.
Também
se sentia vagamente desapontada pelo crescente estrondo que a nave fazia
ao atravessar os derradeiros remoinhos das nuvens interiores de pó
e penetrar enfim na estratosfera de Vénus. Suspirou através
de lábios entreabertos. Quando os dois tinham falado pela última
vez, na casa de Luna, Lightfoot dissera-lhe para recusar a oferta. Era
um suicídio, afirmara. Mas o que ele não compreendia é
que a ideia do suicídio era precisamente um dos principais atractivos
da missão.
2
Uma
mesa de jantar partida jazia inclinada, como um navio prestes a afundar-se,
no meio do armazém mal iluminado. Painéis decorativos danificados,
feitos de pedra sintética, trazidos de outros sectores da casa enorme,
pingavam gotas de condensação.
-
Ripi -
Lightfoot vestia uma camisa com colarinho alto, feita por encomenda para
lhe minimizar a barriga. -
Os Venusianos não conseguiram sacar-lhe nada nestes dezoito anos
desde que ele penetrou no Sistema vindo do Exterior e se foi espatifar
na província de Ishtar. Sorte teve ele em escapar com vida. Enfiaram-no
nesse canto a que chamam reduto e nunca mais o deixaram sair de lá.
-
Também investiguei-
disse Soph. -
Conheço a história toda de fio a pavio.
-
Pois sim, mas percebeste o que significa? Essa é que é a
questão.
-
Gostava de saber porque é que me dei ao trabalho de vir até
aqui.
O
rosto enrugado de Lightfoot abateu-se ainda mais: adquiriu aquela expressão
de cãozinho basset destinada a inspirar simpatia.
-
Tiveste a amabilidade de aceitar o meu convite. Só queria falar
contigo.
Empurrou
uma chávenafumegante de chá
na direcção dela. Soph apanhou-a antes que a chávena
escorregasse pelo tampo inclinado da mesa.
-
Olha, Lightfoot, não penses que me consegues fazer desistir. Se
foi essa a única razão por que me convidaste, mais vale passarmos
à visita da casa. Constou-me que havia uns embutidos lindos nos
tectos dos andares superiores...
-
Não, não...por favor...
-
Então de que se trata? -
para se acalmar, Soph começou a construir uma barreira feita de
blocos de cornalina cor de caramelo.
-
Há quem ache que Ripi entrou no Sistema com uma deepdrive
funcional. Afinal, veio do Espaço Exterior. Correcto?
-
Se tinha alguma, perdeu-a algures entre a órbita de Úrano
e o ponto de impacto em Vénus -
respondeu Soph, interpretando à letra a pergunta retórica. -
Não há sinal dela em nenhum lado. Os Venusianos têm
o que resta da nave. Tiveram que apanhar um a um todos os pedacinhos espalhados
pelos picos das Maxwells.
-
Portanto, nada de deepdrive. Porreiro. Então de que estás
à procura? Julgas que vale a pena o esforço?
-
Há qualquer coisa que não bate certo no Ripi. É um
vronnan... o único exemplar dessa espécie em todo o Sistema
Solar. Estava em fuga quando cá chegou, por isso até ficou
contente quando os Venusianos pegaram nele e o enfiaram numa prisão
de veludo. Até aqui, tem pingado umas quantas gotas de tecnologia
vronnan,que parece ser quase toda
de natureza biológica, mas nada que valha os gastos investidos pelos
Venusianos. Agora, pela primeira vez, fez saber cá para fora que
queria mudar de poiso. Algo mudou, ou no espaço vronnan ou
aqui mesmo, no nosso sistema. Algum esquema em que Ripi se meteu. Pode
ser uma coisa importante.
-
Pode-
Lightfoot puxou pelas bochechas com o polegar e indicador. Soph achou que
ele tinha ficado uma vida inteira à espera que descaíssem,
só para poder executar esse gesto solene. -
Mas continua a não haver nenhum motivo para arriscares o teu lindo
traseiro nesta expedição. Kammer e Kun... são amadores.
Não confio neles.
-
Deixa o meu rabo em paz -
retorquiu Soph, para não perder o hábito. -
Sei muito bem que é um risco. Mas desde quando é que não
tomamos riscos? Francamente, Lightfoot...
-
Riscos calculados... para lucros reais -
Lightfoot fez uma longa pausa. -
Olha, Soph, é contra a ordem natural das coisas uma mãe herdar
as obsessões do filho.
A
menção do filho morto perturbou-a. Habitualmente, manobravam
à volta do assunto, como se o corpo estivesse ainda entre os dois,
estendido na mesa, as mãos cruzadas sobre o peito. Lightfoot nunca
mencionava Stephan, nem durante as discussões, nem em desespero,
nunca. Em mais de dois anos passados, esta era a primeira vez. Tinha de
significar qualquer coisa.
-
Lightfoot...
-
Desculpa, desculpa... -
virou a cara e encostou-se no braço da cadeira, como se estivesse
a examinar as placas imperfeitas de caledónia azul-acinzentada empilhadas
num canto da sala. O armazém estava iluminado por bolbos cintilantes,
usados em tempos para fornecer uma luz romântica ao gigantesco salão
de baile que existia no andar superior. Agora estavam baços, encaixados
nos suportes como pirilampos meio sufocados.
-
É contra a ordem natural um filho morrer antes dos pais-
retrucou Soph para as suas
costas.
-
Mas Stephan nunca ligou muito às regras, não achas?
-
Pois não.
Stephan
fora filho único. Lightfoot e Soph tinham falado em ter outros,
mas, por qualquer razão, entre as oscilações da sorte
de Lightfoot e as intermináveis operações, esquemas
e missões em que os dois se costumavam envolver, não sobrara
tempo para outro. Stephan transformara-se aos poucos no repositório
onde as ambições mútuas costumavam guerrear.
Talvez
como forma de resposta, a sua foi sempre uma vida de risco. Enquanto ainda
era legalmente menor de idade, serviu na guerra Terra-Marte, participando
nas batalhas distantes na Cintura de Asteróides e nas luas de Júpiter.
Soph considerara essa guerra uma revolta fútil contra as espécies
alienígenas que se tinham estabelecido no Sistema, fossem elas os
Artilheiros em Mercúrio, os Bgarth em Vénus ou os Cruthanos,
que habitavam a atmosfera de Titã. Stephan, por seu lado, encarara
o conflito como a derradeira chama de romantismo num mundo triste e sombrio.
Houvera
mesmo combates junto à Terra, entre os asteróides circum-
lunares do Diadema. Quando queriam, oslunares,
cautelosamente neutrais, observavam o fulgor das tochas de reacção
das naves marcianas e terrestres através de telescópios automáticos,
e faziam apostas. Soph nunca quis apostar coisa nenhuma..
Depois
da guerra, Stephan aceitou ser guia desportivo em Io. Apesar da superfície
inabitável, Io fora um dos mais importantes cenários de combates
durante a guerra. Além de ser a maior das luas interiores de Júpiter,
era também o corpo vulcanicamente mais activo do Sistema. A sua
crusta fina torcia-se de um modo dramático sob a atracção
gravitacional de Júpiter e Europa, o maior dos satélites
das redondezas. As torções provocadas pelas marés
gravitacionais mantinham um vasto mar de enxofre e dióxido de enxofre
derretidos prestes a estoirar através da crusta de silicato. Plumas
vulcânicas elevavam-se a centenas de quilómetros da superfície.
Inundações continentais de silicato e enxofre líquidos
sulcavam a superfície rasgada e depois voltavam a escorrer para
as profundezas, rumo ao núcleo em fusão.
Considerada
inabitável por todas as espécies alienígenas do Sistema,
Io tornou-se, depois da guerra, num gigantesco e perigoso parque de diversões,
com nadadores insulados a perseguirem-se através de lagoas borbulhantes
de enxofre, planadores a subirem quase até à velocidade de
escape - acelerados pelo sopro das plumas vulcânicas, ou surfistas
suspensos na crista das vagas feitas de rocha.
Foi
aí que Stephen morreu, no topo de uma erupção vulcânica.
O rosto inchado de Júpiter olhara-o através da atmosfera
conturbada. Os pais perguntavam-se o que teria ele visto, nesses derradeiros
instantes de vida, Inexprimivelmente, ambos acreditavam que recebera alguma
forma de revelação enquanto voava, de braços abertos,
de encontro ao céu em chamas.
Lightfoot
suspirou:
-
Continuas a insistir nessa caça ao tesouro em Vénus?
-
Quantas vezes será preciso repetir?
-
Só mais uma, acho eu.
-
Só mais uma? -
ecoou Soph, sabendo-se embrenhada num velho jogo no qual já participava
quase sem pensar.
-
Sim. As repetições continuam a somar-se.
-
Pois continuam. Olha, Lightfoot, vou-me embora.