Deepdrive: Reacção Profunda
Alexander Jablokov


 

Colecção Portal Devir nº2
Tradução de João Barreiros
Direcção de Luís Filipe Silva

1

Por vezes o nosso sucesso depende das falhas da concorrência, pensou Soph enquanto examinava a massa obscura da nave Argent. A Argent conseguira batê-los na chegada a Vénus, e por mais de um mês, mas continuava em órbita, recortada contra as nuvens de poeira, mais longe da meta do que nunca.

- O segundo vaivém atmosférico já partiu. Tal como tinhas dito. - Kun desviou por alguns segundos a atenção dos mapas de poeira que flutuavam em torno da cabeça para examinar melhor a Argent. Soph preferiria ser ela a ter esse tipo de trabalho. Kun devia ter-se preocupado apenas em conduzi-los a todos em segurança até à superfície.

- Afirmativo. - Soph não estava para lhe explicar que tinha sido Lightfoot, o irritante ex-marido, quem lhe dissera que o segundo vaivém atmosférico da Argent iria estar pousado na superfície antes deles, e provavelmente no mesmo destino previsto. Só esperava queisso não significasse que iria ser obrigada a reavaliar tudo o mais que ele afirmara. 

- Merda! - Kun obrigou Soph a desviar a atenção da Argent.

- Ora aí está aquele tipo de coisas que não gostamos nada de ouvir o nosso piloto exclamar - comentou Soph enquanto se desligava da teia do casulo antichoque.

- Merda! - repetiu Kun enquanto limpava a careca. - A porra destes mapas só nos enfiam barretes!

As nuvens de pó venusianas rodopiavam-lhe à volta da cabeça. Bloqueavam a luz do sol, mantendo a superfície de Vénus habitável, ao mesmo tempo que protegiam o planeta daintrusão de veículos não autorizados. À parte estes recifes do espaço, a capacidade de abordagem orbital de Vénus era limitada e defendida por tratados que datavam da criação das primeiras colónias humanas no planeta, séculos antes. 

- Conta lá outra vez quanto é que tu e a Kammer pouparam com a compra dessa cópia pirata do mapa...

- Esquece-

O vaivém estremeceu. As paredes da cabina começaram a aquecer com a fricção do pó. Soph ouviu os membros do grupo a resmungarem e a praguejarem atrás de si.

Todos os três aparelhos de Kammer e Kun eram excedentesdos equipamentos utilizados no sistema joviano. Soph e sete outros membros da equipagem viajavam suspensos no interior de um casco esguio de monocristal com propulsores acoplados. Os casulos antichoque, arrancados a um velho vaivém de Luna, ainda tinham colados os logótipos de flores sorridentes da companhia de reconstrução. Soph notou que cada uma dessas placas elásticas fora cuidadosamente disposta de modo a esconder os sinais de fadiga da estrutura do casulo. Kammer e Kun adoravam poupar dinheiro.

O globo de Vénus, cada vez mais espalmado, surgiu-lhe por debaixo das botas-lesma. Soph lembrou-se das velhas imagens do planeta, quando este ainda se parecia com um rolamento meio desfocado coberto por nuvens de ácido sulfúrico. Agora, as terras baixas de um verde vivo rodeavam mares cor de estanho. Crateras dos cometas deixados cair pelos alienígenas Monta Sonda marcavam as planícies. Quando os oceanos ficassem enfim cheios, o planeta teria dois continentes principais: Afrodite, uma massa de terra alongada, do tamanho de África, seguindo o equador, e Ishtar, do tamanho da Austrália, pendurada do Pólo Nortecomo um capachinho mal ajustado.

O objectivo da missão localizava-se nas colinas junto do sopé das montanhas Maxwell, que subiam a prumo no centro de Ishtar. Ali, num recanto fortemente protegido e fortificado, um alienígena chamado Ripi negociara umaextracção. Ripi era, desde há dezoito anos, um hóspede/prisioneiro do governo venusiano. Era também o único representante da sua espécie no Sistema Solar. Fora apenas o elevado grau de tédio e corrupção de alguns dos carcereiros de baixa patente que lhe havia permitido estabelecero contacto. Valia a pena o risco para conseguir tirá-lo de lá.

A Argent tinha chegado primeiro ao ponto da lucrativa recolha. Mas Tiber, o capitão, descera sozinho à superfície de Vénus, sem razãoaparente-para nunca mais ser visto. E dado que Tiber era a única pessoa a bordo que contactara com Ripi, a Argent estava entalada. Ao que parecia, a tripulação tinha enviado o segundo vaivém atmosférico directamente ao reduto de Ripi, mas até esse esforço resultara num fracasso. Ripi continuava preso na superfície.

A linha do terminador estava quase a cobrir o reduto de Ripi. A faixa desfocada do pôr-do-sol estendia-se agora sobre os altos picos das Maxwells. A longa noite venusiana estava prestes a cair naquela zona, o que significava que o grupo de Kammer e Kun tinha dois meses de escuridão para poder operar. Soph desejava uma aproximação e captura rápida, mas, como de costume, as coisas nunca aconteciam conforme o plano.

Mesmo sob a linha da noite, a umas poucas centenas de quilómetros a sul de Ripi, cintilava Golgot, a maior cidade de Vénus, junto ao que seria, no futuro, a costa sul de Ishtar.

Kun deitou uma vista de olhos ao mostrador de navegação que o mantinha coordenado com os outros dois veículos de penetração: o de Kammer e outro, pilotado por uma mulher chamada Mura. Sacudiu a cabeça. Era um indivíduo jovem, com pestanas compridas, como se a compensar a falta de cabelo.

À medida que a poeira se esfregava maldosamente de encontro ao escudo ablativo do casco, um assobio parecia vir de todos os lados, até mesmo do interior do crânio de Soph. O escudo fora uma daquelas despesas que Kammer e Kun tinham tentado evitar. Porém,Soph insistira na sua instalação como uma das condições para a sua participação. Um estaleiro circumlunar orbital encarregara-se de pulverizar o escudo ablativo nos cascos por um preço módico. A erosão do escudo absorveria a energia cinética provocada pelo fricção contra as camadas de partículas de pó. Era um meio de sobrevivência tão velho quanto a viagem espacial.

- Não vai haver problemas, Kun - disse-lhe Soph - Temos medidas de segurança.

- Pois claro. Está-se mesmo a ver. Medidas. - A ideia não lhe dava conforto nenhum. Engoliu em seco. - Achas que... que a tripulação da Argent agiu sem o consentimento do Tiber? Que andam a tentar deitar a mão ao Ripi por conta própria?

- Não, claro que não - afirmou Soph, que tinha precisamente as mesmas suspeitas. Doutro modo, teriam enviado o segundo vaivém para recuperar Tiber, ao invés de tentarem alcançar Ripi directamente. Céus, como detestava que Lightfoot tivesse razão. Não queria outra coisa senão vê-lo enganar-se.

- ‘Tá bem! - disse Kun. - A malta vai sacar o Ripi.

- Podes estar descansado.

Soph recostou-se e sentiu a mala a modificar-se para lhe apoiar os rins. As conexões internas, pelo menos assim o esperava, deveriam compensar quaisquer insuficiências estruturais do casulo. A nave abanou com mais força. À medida que o planeta aumentava de tamanho,um saco macio colou-se-lhe à base da nuca.

Sophonisba Trost era uma mulher baixinha, com um corpo forte e eficiente, olhos manhosos e nariz achatado. Estava na casa dos cinquenta. Usava o cabelo ainda negro cortado em forma de capacete e o rosto engelhava-se todo quando sorria. O seu maior receio era que isto a fizesse parecida com um macaquinho.

Também se sentia vagamente desapontada pelo crescente estrondo que a nave fazia ao atravessar os derradeiros remoinhos das nuvens interiores de pó e penetrar enfim na estratosfera de Vénus. Suspirou através de lábios entreabertos. Quando os dois tinham falado pela última vez, na casa de Luna, Lightfoot dissera-lhe para recusar a oferta. Era um suicídio, afirmara. Mas o que ele não compreendia é que a ideia do suicídio era precisamente um dos principais atractivos da missão.

2

Uma mesa de jantar partida jazia inclinada, como um navio prestes a afundar-se, no meio do armazém mal iluminado. Painéis decorativos danificados, feitos de pedra sintética, trazidos de outros sectores da casa enorme, pingavam gotas de condensação.

- Ripi - Lightfoot vestia uma camisa com colarinho alto, feita por encomenda para lhe minimizar a barriga. - Os Venusianos não conseguiram sacar-lhe nada nestes dezoito anos desde que ele penetrou no Sistema vindo do Exterior e se foi espatifar na província de Ishtar. Sorte teve ele em escapar com vida. Enfiaram-no nesse canto a que chamam reduto e nunca mais o deixaram sair de lá.

- Também investiguei- disse Soph. - Conheço a história toda de fio a pavio.

- Pois sim, mas percebeste o que significa? Essa é que é a questão.

- Gostava de saber porque é que me dei ao trabalho de vir até aqui. 

O rosto enrugado de Lightfoot abateu-se ainda mais: adquiriu aquela expressão de cãozinho basset destinada a inspirar simpatia. 

- Tiveste a amabilidade de aceitar o meu convite. Só queria falar contigo. 

Empurrou uma chávenafumegante de chá na direcção dela. Soph apanhou-a antes que a chávena escorregasse pelo tampo inclinado da mesa.

- Olha, Lightfoot, não penses que me consegues fazer desistir. Se foi essa a única razão por que me convidaste, mais vale passarmos à visita da casa. Constou-me que havia uns embutidos lindos nos tectos dos andares superiores...

- Não, não...por favor...

- Então de que se trata? - para se acalmar, Soph começou a construir uma barreira feita de blocos de cornalina cor de caramelo.

- Há quem ache que Ripi entrou no Sistema com uma deepdrive funcional. Afinal, veio do Espaço Exterior. Correcto?

- Se tinha alguma, perdeu-a algures entre a órbita de Úrano e o ponto de impacto em Vénus - respondeu Soph, interpretando à letra a pergunta retórica. - Não há sinal dela em nenhum lado. Os Venusianos têm o que resta da nave. Tiveram que apanhar um a um todos os pedacinhos espalhados pelos picos das Maxwells.

- Portanto, nada de deepdrive. Porreiro. Então de que estás à procura? Julgas que vale a pena o esforço?

- Há qualquer coisa que não bate certo no Ripi. É um vronnan... o único exemplar dessa espécie em todo o Sistema Solar. Estava em fuga quando cá chegou, por isso até ficou contente quando os Venusianos pegaram nele e o enfiaram numa prisão de veludo. Até aqui, tem pingado umas quantas gotas de tecnologia vronnan,que parece ser quase toda de natureza biológica, mas nada que valha os gastos investidos pelos Venusianos. Agora, pela primeira vez, fez saber cá para fora que queria mudar de poiso. Algo mudou, ou no espaço vronnan ou aqui mesmo, no nosso sistema. Algum esquema em que Ripi se meteu. Pode ser uma coisa importante.

- Pode- Lightfoot puxou pelas bochechas com o polegar e indicador. Soph achou que ele tinha ficado uma vida inteira à espera que descaíssem, só para poder executar esse gesto solene. - Mas continua a não haver nenhum motivo para arriscares o teu lindo traseiro nesta expedição. Kammer e Kun... são amadores. Não confio neles.

- Deixa o meu rabo em paz - retorquiu Soph, para não perder o hábito. - Sei muito bem que é um risco. Mas desde quando é que não tomamos riscos? Francamente, Lightfoot...

- Riscos calculados... para lucros reais - Lightfoot fez uma longa pausa. - Olha, Soph, é contra a ordem natural das coisas uma mãe herdar as obsessões do filho. 

A menção do filho morto perturbou-a. Habitualmente, manobravam à volta do assunto, como se o corpo estivesse ainda entre os dois, estendido na mesa, as mãos cruzadas sobre o peito. Lightfoot nunca mencionava Stephan, nem durante as discussões, nem em desespero, nunca. Em mais de dois anos passados, esta era a primeira vez. Tinha de significar qualquer coisa.

- Lightfoot...

- Desculpa, desculpa... - virou a cara e encostou-se no braço da cadeira, como se estivesse a examinar as placas imperfeitas de caledónia azul-acinzentada empilhadas num canto da sala. O armazém estava iluminado por bolbos cintilantes, usados em tempos para fornecer uma luz romântica ao gigantesco salão de baile que existia no andar superior. Agora estavam baços, encaixados nos suportes como pirilampos meio sufocados.

- É contra a ordem natural um filho morrer antes dos pais- retrucou Soph para as suas costas.

- Mas Stephan nunca ligou muito às regras, não achas?

- Pois não.

Stephan fora filho único. Lightfoot e Soph tinham falado em ter outros, mas, por qualquer razão, entre as oscilações da sorte de Lightfoot e as intermináveis operações, esquemas e missões em que os dois se costumavam envolver, não sobrara tempo para outro. Stephan transformara-se aos poucos no repositório onde as ambições mútuas costumavam guerrear. 

Talvez como forma de resposta, a sua foi sempre uma vida de risco. Enquanto ainda era legalmente menor de idade, serviu na guerra Terra-Marte, participando nas batalhas distantes na Cintura de Asteróides e nas luas de Júpiter. Soph considerara essa guerra uma revolta fútil contra as espécies alienígenas que se tinham estabelecido no Sistema, fossem elas os Artilheiros em Mercúrio, os Bgarth em Vénus ou os Cruthanos, que habitavam a atmosfera de Titã. Stephan, por seu lado, encarara o conflito como a derradeira chama de romantismo num mundo triste e sombrio.

Houvera mesmo combates junto à Terra, entre os asteróides circum- lunares do Diadema. Quando queriam, oslunares, cautelosamente neutrais, observavam o fulgor das tochas de reacção das naves marcianas e terrestres através de telescópios automáticos, e faziam apostas. Soph nunca quis apostar coisa nenhuma.. 

Depois da guerra, Stephan aceitou ser guia desportivo em Io. Apesar da superfície inabitável, Io fora um dos mais importantes cenários de combates durante a guerra. Além de ser a maior das luas interiores de Júpiter, era também o corpo vulcanicamente mais activo do Sistema. A sua crusta fina torcia-se de um modo dramático sob a atracção gravitacional de Júpiter e Europa, o maior dos satélites das redondezas. As torções provocadas pelas marés gravitacionais mantinham um vasto mar de enxofre e dióxido de enxofre derretidos prestes a estoirar através da crusta de silicato. Plumas vulcânicas elevavam-se a centenas de quilómetros da superfície. Inundações continentais de silicato e enxofre líquidos sulcavam a superfície rasgada e depois voltavam a escorrer para as profundezas, rumo ao núcleo em fusão.

Considerada inabitável por todas as espécies alienígenas do Sistema, Io tornou-se, depois da guerra, num gigantesco e perigoso parque de diversões, com nadadores insulados a perseguirem-se através de lagoas borbulhantes de enxofre, planadores a subirem quase até à velocidade de escape - acelerados pelo sopro das plumas vulcânicas, ou surfistas suspensos na crista das vagas feitas de rocha.

Foi aí que Stephen morreu, no topo de uma erupção vulcânica. O rosto inchado de Júpiter olhara-o através da atmosfera conturbada. Os pais perguntavam-se o que teria ele visto, nesses derradeiros instantes de vida, Inexprimivelmente, ambos acreditavam que recebera alguma forma de revelação enquanto voava, de braços abertos, de encontro ao céu em chamas.

Lightfoot suspirou:

- Continuas a insistir nessa caça ao tesouro em Vénus?

- Quantas vezes será preciso repetir?

- Só mais uma, acho eu.

- Só mais uma? - ecoou Soph, sabendo-se embrenhada num velho jogo no qual já participava quase sem pensar.

- Sim. As repetições continuam a somar-se.

- Pois continuam. Olha, Lightfoot, vou-me embora.